domingo, 4 de janeiro de 2009

Dê Portela na Contação do Boi Reciclado


E agora uma história eu vou contar.
É do bumba meu boi esse relato,
uma peça folclórica num ato.
Do nordeste já foi pro além-mar,
e é pra sempre, não tem como acabar.
Eu lhe peço um minuto de atenção;
abra os olhos e abra o coração.
Compreender é bem mais do que ouvir:
é preciso alegria pra sentir
o saber e o sabor da contação.
Certa vez um fazendeiro
percebeu que um boi seu
não estava na fazenda.
- O que foi que aconteceu?,
matutou o senhorio,
onde ele se meteu?
-Esse boi é muito belo;
não se pode comparar
a nenhum boi da fazenda
ou de algum outro lugar.
O meu boi é precioso,
ele sabe até dançar!
E diante do sumiço
desse boi arruaceiro
já tomou a providência
o temido fazendeiro:
colocou atrás do boi
desde índio até vaqueiro.
Ia forte essa procura,
todo mundo já cansado,
quando enfim se descobriu
algo bem inusitado:
o sumiço não foi fuga;
o boizinho foi roubado.
No entanto a surpresa
tinha outro componente:
Sabe quem roubou o boi?
Era alguém da sua gente,
justo alguém de confiança;
um antigo e bom servente.
Quem roubou foi o Pai Chico,
que à noite, na surdina,
levemente caminhou
como fosse bailarina.
Ele foi roubar o boi
pra esposa Catirina.
Com o caso resolvido
e o boi já resgatado
ainda havia um problema:
era o boi adoentado.
Fazendeiro ordenou
e o pajé foi convocado.
Pelas artes da magia
o boizinho se curou.
Depois disso o fazendeiro
o Pai Chico interrogou.
Pois então que o servente
logo assim se explicou:
- Minha esposa estava grávida,
o filhinho por nascer.
O desejo da mulher
era um boi pra se comer.
E não era qualquer parte,
mas a língua desse ser.
Eis que o chefe da fazenda
nem sequer pestanejou:
entendeu e perdoou,
desistindo da contenda.
- Isso logo se remenda,
ponderou o fazendeiro.
E depois desse salseiro
novamente a paz se fez.
E foi festa todo mês,
e foi festa o ano inteiro.




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